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Com Ademar Nunes

Gleice Aguilar dos Santos: De vítima a protetora

A farda impõe respeito. Mas não é só a vestimenta de polícia não. A postura, olhar e o falar demonstram que é uma mulher de respeito mesmo. Respeito porque tem uma história de vida impressionante e nunca parou de lutar. Você vai conhecer agora ela que além de toda força e coragem é amorosa e delicada. Policial Militar, mãe de sete filhos (sim, são SE-TE), mestranda em geografia, ex-vítima de violência doméstica e hoje atua na proteção de mulheres. Ninguém melhor para a coluna GENTE DA CIDADE trazer neste dia da mulher.

Gleice Aguilar dos Santos, nasceu no dia 05 de outubro de 1978, em Aquidauana. De família batalhadora, foi criada pelos pais com a irmã. Se formou em Geografia, mas foi como Policial Militar que se encontrou na profissão.
Passou no concurso em 1998 e pela profissão já morou em várias cidades de Mato Grosso do Sul como Jardim, Guia Lopes da Laguna e Sidrolândia.

FAMÍLIA GRANDE, MÃE DE 7

Nos dias atuais, em que as pessoas têm um ou dois filhos, eu não estava preparada para ouvir esta resposta. Quando perguntei quantos filhos ela tinha e me disse que são sete, fiquei de boca aberta! Afinal, é tão nova e trabalha tanto, como consegue?
Gleice conta que não foi fácil. Teve o primogênito aos 16 anos. Kevyn hoje com 20 anos, também é policial militar, prova de que o exemplo da mãe foi tão positivo que decidiu seguir a mesma carreira. A Barbara de 19 , também se espelhou na mãe e vai cursar geografia. Os outros cinco são Gabriel (17), Julia (15), Thiago (14), Laiz (10) e Livia (8).
Os sete são frutos de quatro casamentos, todos os filhos foram assumidos por Walter, maridão com quem está casada há mais de 10 anos.
“Criar meus sete filhos foi minha maior vitória, tenho muito orgulho de ver que estão todos bem”. Pergunto se existe um segredo para ser mãe de tantos. “Renúncia. Ser mãe é renunciar. Investi tempo os ensinando a serem justos, a respeitarem. E tudo isso hoje volta para mim”.

VÍTIMA DE VIOLÊNCIA

Nem sempre a vida foi um mar de rosas. O segundo casamento foi complicado. Foi vítima de violência psicológica por três anos. Situação que só teve fim após o então marido se suicidar. “Tudo isso me abalou muito. Mas também me fortaleceu. Eu me reconstruí me superei e consegui força e experiência para ajudar outras mulheres”.

DE VÍTIMA A PROTETORA
Quando dizem que nada na vida acontece por acaso, a Gleice pode ser testemunha disso. Desde março do ano passado ela recebeu um novo desafio. Estar a frente do projeto “Mulher Segura”.
“Tudo começou quando eu fui participar da rede de enfrentamento à violência contra a mulher. Aí o comando da PM teve a ideia e inovou em criar este projeto e me convidou para ajudar”.
A equipe do projeto que, conta também com um sargento formado em psicologia e direito, fiscaliza medidas de proteção às vítimas de violência. Funciona assim: Se a vítima faz a ocorrência e solicita medida protetiva, o projeto faz o acompanhamento e vistoria se a ordem está sendo cumprida, caso contrário, toma as medidas cabíveis contra o agressor.
“Em Dourados, por ser região de fronteira, muitos agressores são usuários de drogas. Usam crack ou cocaína e ficam muito violentos. Um caso que me marcou foi de uma mulher que aos 50 anos apanhava muito mesmo estando separada do marido há 3 anos”.
Também tem muitos casos que a impactaram positivamente. “Uma mulher que depois de 22 anos casada, recebeu encorajamento do projeto e denunciou. Atualmente recomeçou a vida e está muito bem”.

PRECISA MUDAR
Para Gleice, Dourados possui uma rede bem completa de enfrentamento, mas a lacuna está principalmente nas mulheres de classe mais alta. “Elas também sofrem violência, mas não denunciam. Tem vergonha ou dependência financeira”.
O projeto também faz um trabalho de conscientização e prevenção nas aldeias, onde o índice de vítimas é bem alto.

FUTURO
Você pode achar que Gleice já alcançou tudo que queria. Só que não! Quando terminar o mestrado quer fazer doutorado fora do país. “Quero estudar mais, terminar de criar meus filhos e ajudar mais mulheres a saírem da opressão”.
FRASE
-“Pode ser duas?”
-Gleice, depois de ouvir sua história você pode tudo!
-“As mulheres são como águas, crescem quando se encontram” (autor desconhecido)
“Pois de amor andamos todos precisados! Em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender , perdoar ir para frente...” Carlos Drummond de Andrade.

Por Miriam Névola, Jornalista.

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